Consumimos, cada vez mais, conteúdos sintéticos e interagimos com entidades que não são humanas. Bots, perfis artificiais, textos gerados automaticamente, vídeos fabricados por inteligência artificial. Este ambiente vai-nos tornando frios, cínicos, emocionalmente anestesiados, quase sem empatia por nada nem por ninguém.
Repare-se no ecossistema digital actual: sites de notícias e redes sociais estão inundados de fake news; algoritmos decidem o que vemos, quando vemos e durante quanto tempo vemos; os textos já não existem para informar, esclarecer ou aprofundar — existem para gerar cliques, reacções rápidas e consumo compulsivo. A verdade tornou-se secundária em relação à performance.
O YouTube está saturado de vídeos criados por IA. Alguns são curiosos ou têm piada, mas a esmagadora maioria — facilmente 90% — é ruído puro: conteúdo vazio, repetitivo, sem alma. Os comentários seguem o mesmo padrão: muitos não pertencem a pessoas reais, são comprados, automatizados, simulacros de interacção humana.
A Amazon começa a encher-se de livros de baixa qualidade, superficiais, pouco rigorosos, escritos por IA e lançados em massa. Produtos descartáveis, sem profundidade, sem experiência humana por trás. Lixo editorial disfarçado de conhecimento.
Grande parte dos conteúdos que consumimos até pode ter tido um ser humano por trás — alguém a escrever prompts — mas o resultado final é artificial. Falta-lhe emoção, intenção, empatia, vivência. Já não se escreve para comunicar com pessoas, escreve-se para influenciar comportamentos. Informação dá lugar à manipulação. Entrámos plenamente numa guerra memética.
Hoje, quando lê uma notícia ou vê um vídeo, qual é a sua reacção imediata?
“Não acredito nisto.”
“Isto deve ser falso.”
“Foi gerado por IA.”
Aos poucos, começamos a não acreditar em nada. E quando não acreditamos em nada, também deixamos de sentir. A empatia dissolve-se. A emoção esvazia-se. Tudo parece falso, encenado, descartável.
Interagimos com pessoas sem saber se são pessoas.
Conversamos sem saber se do outro lado está um humano ou um bot.
Até nas aplicações de namoro, uma grande parte dos perfis são artificiais, criados para manter a ilusão de escolha, atenção e validação.
E enquanto isto acontece, os nossos dados circulam livremente. As nossas preferências, hábitos, padrões de consumo e reacções emocionais são recolhidos, analisados e vendidos. Nas redes sociais, não somos o cliente — somos o produto. Um activo estatístico negociável.
No mundo físico, supostamente “real”, o cenário não é muito diferente.
Nas ruas, nos cafés, em jantares de família, no Natal ou em qualquer encontro social, as pessoas falam cada vez menos. Cada indivíduo está concentrado no seu próprio ecrã, no seu feed personalizado, na sua bolha algorítmica. Estamos juntos, mas isolados. Próximos, mas desconectados.
A tecnologia prometia aproximar-nos.
Acabou por fragmentar-nos.
A confiança está a desaparecer.
A atenção está a ser explorada.
A empatia está a ser corroída.
Perante tudo isto, a pergunta impõe-se, inevitável e desconfortável:
Para onde caminha a sociedade?
Silvio Guerrinha

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